Este artigo propõe a escrevivência, conceito forjado por Conceição Evaristo, como metodologia crítica de pesquisa no campo jurídico, a partir das epistemologias feministas negras e amefricanas. Entendida como prática de escrita que articula memória, corpo, oralidade e ancestralidade, a escrevivência é apresentada como estratégia de fuga da gramática colonial, racista e patriarcal que historicamente estrutura o direito brasileiro. Analisando o direito como cartografia da dominação, o texto reivindica uma travessia metodológica capaz de desvelar as fraturas e invisibilizações encobertas pela normatividade jurídica. Em diálogo com a produção de juristas negras como Eunice Prudente, Dora Bertúlio, Ana Flauzina e Thula Pires, discute-se o pioneirismo e a construção de legados de liberdade que constituem uma escrevivência jurídica coletiva. A escrevivência é defendida tanto como processo quanto como produto: prática de reinvenção de mundos possíveis a partir da escrita de nossas memórias, práticas, gestos, toda forma de testemunho de nossas rotas de fuga e imaginação radical. Ao tensionar a cultura jurídica hegemônica, a escrevivência inaugura epistemologias insurgentes comprometidas com a memória, a vida e a invenção de futuros.
This article proposes escrevivência, a concept forged by Conceição Evaristo, as a critical research methodology within the legal field, drawing from Black feminist and Amefrican epistemologies. Understood as a writing practice that articulates memory, body, orality, and ancestry, escrevivência is presented as a strategy to rupture the colonial, racist, and patriarchal grammar that historically structures Brazilian law. Analyzing law as a cartography of domination, the text advocates for a methodological crossing capable of unveiling the fractures and invisibilizations concealed by legal normativity. In dialogue with the work of Black women jurists such as Eunice Prudente, Dora Bertúlio, Ana Flauzina, and Thula Pires, it discusses the pioneering efforts and the construction of freedom legacies that constitute a collective legal escrevivência. Escrevivência is defended both as a process and as a product: a practice of reinventing possible worlds through the writing of historically subalternized bodies and experiences. By challenging the hegemonic legal culture, escrevivência inaugurates insurgent epistemologies committed to memory, life, and the invention of futures.