Resumo: Este artigo reinterpreta a concepção de religião de Charles Montesquieu não como um tema periférico em sua filosofia política, mas como um elemento estrutural de sua reflexão mais ampla sobre poder, direito e liberdade. Contra as leituras que retratam Montesquieu seja como um cauteloso defensor da tradição religiosa ou como um dos primeiros secularistas, este artigo argumenta que sua posição é melhor compreendida como uma teoria da moderação. Para Montesquieu, a religião não é nem uma verdade transcendente a ser imposta nem uma mera ilusão a ser eliminada. Ela é uma força social cuja significância política depende de sua relação com as instituições, os costumes e as formas de governo. Através de uma análise textual minuciosa de O Espírito das Leis e Cartas Persas, este artigo identifica três dimensões interconectadas do entendimento de Montesquieu sobre a religião: sua função moral, sua ambivalência política e sua suscetibilidade à variação histórica. A religião pode cultivar virtudes cívicas, mas também pode legitimar o despotismo. Ela pode estabilizar sociedades, mas também pode radicalizá-las. Essas tensões não são anomalias no pensamento de Montesquieu; elas são o seu próprio fundamento. Ao reconstruir as reflexões de Montesquieu sobre a religião dentro de sua teoria mais ampla da liberdade, este artigo mostra como sua obra antecipa debates contemporâneos sobre pluralismo, secularismo e os limites da autoridade política. Em vez de oferecer uma doutrina de verdade religiosa, Montesquieu fornece uma antropologia política da crença, a qual permanece notavelmente relevante em uma época marcada tanto pelo ressurgimento religioso quanto pela ansiedade secular.
This article reinterprets Charles Montesquieu’s conception of religion not as a peripheral theme in his political philosophy, but as a structural element of his broader reflection on power, law, and liberty. Against readings that portray Montesquieu either as a cautious defender of religious tradition or as an early secularist, this study argues that his position is better understood as a theory of moderation. For Montesquieu, religion is neither a transcendent truth to be imposed nor a mere illusion to be eliminated. It is a social force whose political significance depends on its relationship with institutions, customs, and forms of government. Through a close textual analysis of The Spirit of the Laws and Persian Letters, this article identifies three interconnected dimensions of Montesquieu’s understanding of religion: its moral function, its political ambivalence, and its susceptibility to historical variation. Religion can cultivate civic virtues, but it can also legitimize despotism. It can stabilize societies, but it can also radicalize them. These tensions are not anomalies in Montesquieu’s thought; they are its very foundation. By reconstructing Montesquieu’s reflections on religion within his broader theory of liberty, this article shows how his work anticipates contemporary debates on pluralism, secularism, and the limits of political authority. Rather than offering a doctrine of religious truth, Montesquieu provides a political anthropology of belief, one that remains strikingly relevant in an age marked by both religious resurgence and secular anxiety.