, Trang Do
O presente artigo propõe uma análise do desenvolvimento psicológico da personagem Smerdyakov em Os Irmãos Karamazov, uma figura emblemática dentro de uma das obras mais representativas da filosofia existencial de Dostoyevski. A solidão, o anseio existencial e a rebeldia como forma de autoafirmação expressam, de maneira contundente, a “filosofia do estado de espírito”("philosophy of mood"?) que permeia o conturbado panorama social russo da época. Manifesta-se, na trajetória de Smerdyakov, a dualidade essencial da existência: de um lado, a resignação diante do destino; de outro, uma reação que busca superá-lo; de um lado, a submissão; de outro, uma resistência voluntária encoberta por performances calculadas e ambíguas. Por meio da solidão e da rebeldia dessa personagem, o artigo reconstrói a crise existencial que marca a obra, destacando o refinamento estético e a precisão analítica da escrita de Dostoyevski, bem como sua contribuição singular à tradição filosófica existencial. O artigo reafirma valores centrais da filosofia existencial presentes no pensamento dostoiévskiano, tais como o pessimismo, os sentimentos de isolamento e rejeição, a insurgência contra um destino aparentemente imutável, a liberdade aliada à responsabilidade, o inconsciente e como força geradora de criatividade, escolha e fé; valores estes que permanecem dignos de louvor e representam fontes duradouras de reflexão e inspiração, reverberando no pensamento de diversos filósofos posteriores, tanto russos quanto ocidentais.
This article focuses on elucidating the psychological developments of Smerdyakov in The Brothers Karamazov—a representative character in a quintessential work of Dostoevsky’s existential philosophy. Smerdyakov’s solitude, yearning, and rebellion as a means of self-assertion profoundly exemplify the “philosophy of mood” within the conflicted social landscape of Russia. The dualistic nature of existence is revealed here: on one hand, resignation to fate; on the other, a reaction striving to overcome it; on one side, submission; on the other, a willful defiance concealed beneath the character’s calculated performances—this is the case with Smerdyakov. The article reconstructs the existential crisis through Smerdyakov’s loneliness and rebellion, thereby highlighting Dostoevsky’s sharp and brilliant literary craftsmanship, as well as his contributions to the existential intellectual current of humanity. This study affirms existential values in Dostoevsky’s philosophy, such as pessimism, feelings of isolation and rejection, rebellion against fate intertwined with messages of freedom and responsibility, the unconscious and the eruption of creativity, choice and faith—values that remain worthy of praise and serve as a lasting source of inspiration. These elements are echoed in the thoughts of many later philosophers, both Russian and Western.