O itinerário teórico aqui delineado opera um deslocamento: rompe com a visão liberal-individualista do bem-estar e o reinscreve como resultado de processos históricos e estruturais de acumulação e transmissão de vantagens. O bem-estar, nesta chave, não é prêmio ao mérito, mas desdobramento de dinâmicas familiares, territoriais e institucionais que antecedem e moldam as capacidades individuais. As categorias de patrimônio elementar, contextos estruturantes, modos de reprodução e densidade infraestrutural articulam-se num sistema de reprodução social que persiste e se adapta ao longo do tempo, apesar das transformações superficiais. Entender a reprodução das desigualdades exige, portanto, compreender os circuitos subterrâneos em que essas categorias se entrelaçam e se retroalimentam. Políticas públicas que pretendam enfrentar essas desigualdades não poderão se limitar a intervenções parciais ou pontuais. Sem atacar simultaneamente a concentração dos patrimônios, as barreiras dos contextos estruturantes e as carências infraestruturais, qualquer esforço isolado será tragado pela inércia dos processos históricos que, secularmente, naturalizam privilégios e condenam à repetição as desvantagens sociais.