O propósito deste texto consiste em ampliar a compreensão do conceito de corpos abjetos e de vulnerabilidade compartilhada, consubstanciado no acontecimento Marielle Franco. A morte de Marielle movimentou um luto coletivo não apenas pela indignação concernente a brutalidade de seu assassinato, mas também porque a vida de Marielle foi qualificada pela intensa participação social e política que ela levou a cabo. A vida considerada desqualificada (mulher negra, lésbica, mãe solteira, moradora da favela) passou a ser considerada qualificada pelas ações sociais por ela praticadas, relacionadas a luta pelos direitos humanos. Isso nos leva a questionar que a vida não tem valor em si, a vida não é um bem, mas um valor que sofre das heranças de sua história e das disputas morais de seu contexto. Valor este que se vê interpelado a partir da forma como a história é contada. Esse assassinato repercutiu em grupos sociais tradicionalmente minoritários, no que tange ao alargamento da cidadania, apesar das constantes fragmentações que os vêm constituindo. É possível compreender a formação de um solo comum nesses grupos no qual eclodiram discursos de reivindicação a justiça: grupos feministas de diversas abordagens, grupos antirracistas, coletivos de movimentos negros, de jovens moradores de periferias, de LGBTQI+, de defesa aos direitos humanos. A hipótese é que no corpo de Marielle estão muitos outros reunidos, corpos assujeitados que compartilham heranças das violências coloniais.